Inversão de valores – por Felipe Hodar

Estava lendo uma matéria que saiu na revista Época Negócios que fala da reunião em Copenhague no mês de Dezembro desse ano que tratará do aquecimento global e fiquei pensando nos esforços (ou não) dos países em estipular metas de redução das emissões de carbono nos próximos anos e a real necessidade de se comprometer para que as metas sejam cumpridas quando assumidas por cada governo.

Ao mesmo tempo em que lia a matéria, me veio à memória a crise financeira que se iniciou em setembro do ano passado e comecei a correlacionar os dois temas, a crise financeira e o aquecimento global (em especial na reunião de Copenhague). Mas o que estes temas tem em comum? Vamos ver:

· Crises

· Envolvem recursos financeiros

· Empregos em risco

· O futuro preocupante

· As principais nações (potências) do mundo envolvidas

· Os emergentes envolvidos

Bem, queria compartilhar o que me fez pensar nesses seis pontos convergentes entre os dois temas, na minha opinião:

1. Porque os dois temas considerei como crise?

A crise econômica, o próprio nome já diz, é por si só uma crise, que atingiu o mundo globalizado e que em meses, senão semanas, alcançou o planeta de um extremo a outro, causando instabilidade econômica, psicológica, abalando os alicerces da confiabilidade dos investidores. Muito dinheiro foi perdido, bancos quebraram, como o caso do Lehman Brothers, um banco fundado em 1850. Uma crise global, com efeitos globais.

Assim como a crise financeira internacional, o aquecimento global e suas vertentes que serão discutidas indicam que haverá no futuro, e não muito longe, uma bolha de efeitos nocivos à natureza e ao planeta, dessa vez não uma bolha devido ao crédito excessivo e sem controle que desencadeou a crise financeira, mas uma bolha que poderá levar a sérios riscos e conseqüências que podem se tornar irreversíveis. Teremos então uma nova crise, mas desta vez, pode ser tarde demais.

2. Porque os dois temas envolvem recursos financeiros?

Durante a crise financeira, além dos enormes prejuízos financeiros que muitas empresas passaram, com perdas de negócios, falências, perdas vultuosas de dinheiro, os governos com sua intervenção, injetaram trilhões de dólares na economia, com ajudas pontuais, como no caso as montadoras nos EUA ou como os mais de um trilhão de dólares injetados juntos por Alemanha, França, Itália, Áustria e Paises Baixos¹.

A reunião que ocorrerá em Copenhague em dezembro para tratar do aquecimento global e das metas de redução de carbono está levando a um debate ou até mesmo a um paradigma sobre os valores que os países irão adotar. Recentemente o Brasil falou em níveis de 38% na redução até 2020 além de 80% na redução do desmatamento. Mas e o que isso tem em comum com a crise internacional?

Os paises não querem assumir compromissos com as metas de redução pensando em evitar os “prejuízos” ou melhor, deixar de ganhar dólares por assumir compromissos, isso seria o mesmo que investir na contramão do capitalismo e o que os empresários e governos querem é a política do ganha-ganha. Até mesmo a China, um país que seria comunista se tornou um comunismo com adornos capitalistas (será que foi assim que Karl Marx pensava?).

Se houve uma injeção de mais de trilhões de dólares para salvar empresas, bancos, sistemas inteiros financeiros (criando até mesmo uma nova bolha que governos futuros terão que trabalhar para um novo momento de crise), essa injeção não poderia ser um investimento dos recursos financeiros para cuidar do planeta? Afinal, para que servirá todo o petróleo do mundo, ou geração e co-geração de energia se no próximo século tivermos problemas graves com o planeta?

3. Empregos em riscos?

Níveis assustadores de desemprego assolaram os países, principalmente os EUA e países mais ricos, que sofreram com a crise financeira. Correndo contra o vento, os governos mudaram políticas, investiram milhares de dólares em empresas privadas, até mesmo sendo participantes como acionistas nestas, mas com a preocupação que estas empresas não demitissem, aumento do auxilio desemprego e outras várias ações tomadas que lemos e acompanhamos nos jornais ao longo dessa crise e sua inércia, sentida até os dias de hoje.

Fazendo a correlação com o fenômeno do aquecimento global e a necessidade da redução da emissão de carbono, estariam empregos em risco? Pode se dizer que sim, mas porque?

Do meu ponto de vista, se as empresas adotarem e se comprometerem com as metas, e estas sendo trabalhadas conforme a necessidade do futuro, as empresas terão que tirar o pé do acelerador, reduzindo assim suas enormes margens de lucro que a cada dia crescem. O que pode acontecer com isso? Será que os governos e empresas assumirão o mesmo compromisso em manter os empregos quando se trata da sobrevivência do planeta, ao invés da sobrevivência da empresa ou de suas margens? Eu espero que sim!

4. Futuro preocupante

Assim como foi no inicio da crise internacional, o futuro econômico era incerto, as bolsas de vários países caíram a valores jamais registrados, até pensou-se em uma nova recessão como a de 1929.

Quem imaginou que depois do “crash” da Bolsa de NY em 1929 uma nova crise chegaria? Como será que Peter Druker reagiria se estivesse vivo? Afinal ele acreditara em um novo “boom” da economia. Até mesmo o ex-presidente do FED, Alan Greenspan, subestimou a “bolha” gerada pelo subprime.

Dois graus de elevação na temperatura do Planeta, o que será que vai acontecer? Até lançaram recentemente o filme “2012”, com predição de final do mundo, anos atrás o filme “O dia depois de amanhã”. Quando será que vamos deixar de simplesmente pensar no futuro e agir pelo futuro?

A crise financeira chegou e já estava aparecendo, é como a história do urso (ou macaco) no meio de um treino de basquete (para descontrair visite http://www.youtube.com/watch?v=2pK0BQ9CUHk e veja o que estou falando).

Dizem que mais de 70% das fontes de geração de energia para suprir a demanda do futuro deverão ser construídas até 2012, que tipo de energia deveremos investir? Que parcerias devemos fazer para garantir nosso futuro e de nossos descendentes, ah! E do planeta também?

5. As principais nações envolvidas (ou poderíamos dizer potências)

Durante a crise financeira dessa década, as grandes nações sofreram bastante, inclusive pela demora em reagir de forma aos governos intervirem, sempre achando que a intervenção do Estado em uma sociedade capitalista seria algo inconcebível ou até mesmo uma afronta ao sistema capitalista.

Mais uma vez, esses são os países que demoram a adotar uma postura ousada e poderia dizer, quebrar paradigmas, e resolver se posicionar quanto às metas de redução dos níveis de carbono. Será que os EUA, Japão, Alemanha e outros tomarão decisões? Será que existe pavor em descartar o carvão como forma de geração de energia, ou o petróleo, mesmo que isso seja para o bem do Planeta?

O Petróleo é uma fonte de energética fantástica, e tem sido um bom investimento, mas e o álcool por extração de cana de açúcar ou milho? Investimento muito alto? Para quem? E o planeta, não é um investimento?

6. Os Emergentes

Qualquer semelhança é mera coincidência.

Semana passada o Presidente norte-americano esteve em uma visita de três dias na China, um país que cresce 8% ao ano mesmo no meio da crise.

Durante essa crise financeira, os emergentes estiveram passos à frente das demais economias, talvez pelo tipo de regime econômico adotado, sem compromissos, que pensam mais “no todo” ao invés de outros interesses. Na verdade não sei a resposta correta, mas mais uma vez os emergentes são o motivo, ou desculpa para a tomada de uma decisão, ou parte de uma solução.

Paises do primeiro mundo dizem que somente adotarão políticas de redução de carbono se os países emergentes assumirem posturas também consideráveis. Será isso um medo do crescimento dos emergentes?

A semelhança com a crise financeira e a próxima reunião em Copenhague que entendo se dá pelo fato dos emergentes novamente terem uma postura mais ética, pelo menos nos bastidores, mesmo não sendo tecnicamente responsáveis na obrigação do cumprimento das metas.

Assim como na questão econômica os Emergentes são tratados como terceiro mundo (vamos ser sinceros, os paises de primeiro mundo, apesar da expressão estar fora de moda, ainda nos vêem como tal), para o assunto do aquecimento global, são tratados como um bloco distinto, mas o passo que cada um destes dará pode ser um entrave, ou não, do próximo passo para os países desenvolvidos darem.

Independente de qualquer coisa, e se há ou não semelhança real nos pontos que apresentei acima, acho que vale a pena meditar naquilo que está em nossas mãos. Não entendo que seja responsabilidade dos governos, pura e simplesmente, a tomada de qualquer decisão, pois o governo, sem as pessoas é só uma utopia. A economia sem as pessoas, também. Até mesmo o planeta, sem as pessoas, deixará de existir (sugestão de lazer, às quintas-feiras no History Channel passa um programa do planeta sem as pessoas, muito interessante). Aonde quero chegar? Que é preciso olhar para o passado e aprender para o futuro, sem medo, sem egoísmo, e com amor.

Amor não simplesmente ao próximo, mas a toda criação, ao planeta, a nossa casa, a nossa nave espacial, senão, estaremos sofrendo com essa triste inversão de valores.

¹ http://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_econ%C3%B4mica_de_2008

 

Um Abraço.

Felipe Hodar

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