A ARTE DE ESCREVER DIFÍCIL. 

Hoje recebi uma mensagem em meu correio eletrônico; me deu mais trabalho do que o usual para interpretá-la. Para ser sincero, não consegui definir se ela estava escrita em português, inglês ou outra língua que não conheço! E confesso, não era uma mensagem extensa. Não tinha mais do que um parágrafo. Mesmo assim, perdi um bom tempo para decifrá-la. A pessoa que enviou é brasileira, mas o texto trazia palavras estrangeiras como: “competitiveness”, “Shingi’s” misturadas com algumas siglas ,cujo significado, muitos envolvidos naquele tema com certeza não sabiam.

Noto que está cada vez mais comum o emprego de palavras estrangeiras, que de certa forma se tornaram  usuais em reuniões, emails, palestras e por aí vai. Esse não é um tema novo e tenho certeza de que não seja o primeiro e nem o último a escrever sobre o assunto. No entanto, é notável que estamos criando uma nova língua… a linguagem corporativa.

Não acho tão absurdo que adaptemos a nossa linguagem e comunicação, ainda mais em um ambiente tão globalizado como o que vivemos hoje, mas a preocupação vem do fato de que alguns não acompanham o ritmo da evolução do nosso diálogo corporativo. Aqueles que não dominam, principalmente o idioma inglês, terão dificuldades para entender a “nova língua”.

Outro ponto, que não é uma preocupação, mas uma constatação, é que alguns vêm fazendo uso da “nova língua” para tentar surpreender em discussões , quando  não possuem domínio do tema, para persuadir o interlocutor. Outra técnica também usada por estes profissionais é  a de lançar termos extremamente técnicos e em idiomas variados para valorizar um conhecimento que muitas vezes não têm. Temos que estar atentos para não deixar nos envolver com este tipo de lorota.

Confesso que quase sempre é mais fácil usar a “nova linguagem” ao invés da que aprendemos na escola durante tantos anos. Por exemplo: é mais fácil dizer “qual o lead-time deste projeto” do que “qual o tempo de execução previsto para este projeto”; ou “vamos parar para o coffee break” ao invés de “vamos fazer uma pausa para o café”. Parece que a palavra sai mais facilmente de nossa boca. Mas o que ocorre na verdade, é que nosso cérebro está condicionado a elaborar esses termos, pois,os ouvimos  diariamente e, por isso, temos a impressão de que a palavra sai sem quer que façamos qualquer esforço.

Não posso deixar de comentar sobre aqueles verbos que não existem, mas nós continuamos a conjugá-los. Por exemplo: “Vou te enviar o documento escaneado” ou “o cabo do meu monitor está plugado”. Como ficaria a primeira sentença que acabei de exemplificar traduzida para o português “natural”: “Vou te enviar o documento copiado eletronicamente”, difícil não é? Já tive o privilégio de ouvir alguns absurdos como: “Vou sherear* a tela do meu computador na vídeo-conferência”. * derivação do verbo share (dividir em inglês).

Outro dia me peguei usando a “nova língua” e só notei isso através da expressão no rosto do interlocutor, que era uma pessoa da minha família. Eu queria dizer “preciso resolver isso urgentemente”, mas acabei dizendo “Preciso disso ASAP” e escutei uma enorme indagação: “O quê???”

Tenho tentado me vigiar para ser o mais claro possível usando a língua portuguesa na versão “natural” ou “tradicional”, como preferir. Isso só traz vantagens em nossas comunicações corporativas como o fácil entendimento , a clareza nas trocas de mensagens e a certeza de que seu  interlocutor entendeu o que você necessita, dentre muitas outras.

Espero ter contribuído de alguma forma para a comunicação do nosso dia-a-dia profissional. Compartilhem suas opiniões.

Um abraço.

Tiago Calipo
tiagocalipo@yahoo.com.br

 23/09/2009

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